Relato de Participação em um congresso de valorização a memória regional
Participei do 16º Congresso História e Estudos Regionais do Grande ABC, e foi uma experiência que me surpreendeu em muitos sentidos. O evento, realizado na Biblioteca Monteiro Lobato, em São Bernardo do Campo, foi marcante desde o primeiro momento. O ambiente, repleto de pesquisadores, artistas e estudantes, respirava história, cultura e pertencimento. O congresso se propôs a refletir sobre os múltiplos sentidos de memória no Grande ABC — um território profundamente ligado às transformações sociais, culturais e industriais do país.
Um dos momentos que mais me marcou foi a reflexão sobre os novos fluxos imigratórios do Grande ABC, com a participação de Adriana Capuano de Oliveira, Vanderlei Lucentini e Alejandro Cifuentes Flores. Olhar para a imigração não apenas como um fenômeno histórico, mas como algo que continua a se desdobrar agora, perto de nós, me fez pensar sobre pertencimento, identidade e transformações urbanas.
No meio da programação, tive também o privilégio de apresentar meu próprio trabalho, intitulado “Patrimônio industrial e memória coletiva: o caso de Paranapiacaba”, desenvolvido em coautoria com Cristiane dos Santos Gasques. Confesso que estava um pouco ansioso, mas também muito orgulhoso por poder compartilhar uma pesquisa que me é tão cara.
Expliquei ao público que nosso estudo analisa a vila ferroviária de Paranapiacaba, em Santo André, como um exemplo de patrimônio industrial e preservação da memória dos trabalhadores ferroviários. Mostrei como um espaço criado, originalmente, para atender a demandas técnicas e produtivas acabou se transformando em um símbolo de identidade e cultura. Ao exibir imagens do relógio-torre e das antigas oficinas, percebi o interesse da plateia crescer — especialmente quando abordei a engenhosidade do sistema funicular implantado pelos britânicos no século XIX.
Um dos momentos mais instigantes foi discutir as tensões entre preservação e turismo. Comentei sobre os desafios atuais: o risco de descaracterização e a substituição das narrativas operárias por versões mais voltadas ao exotismo histórico. Essa parte gerou um ótimo debate, com trocas que mostraram como questões semelhantes se repetem em outras cidades do ABC. Encerrar a apresentação sob aplausos e comentários positivos foi uma sensação de gratificação imensa — percebi que minha pesquisa dialogava, de fato, com os temas centrais do congresso.
Outro ponto alto do evento foi a roda de diálogos sobre o cinema em São Bernardo do Campo, conduzida por Diaulas Ullysses Mercedes. O encontro reuniu cineastas e pesquisadores em uma conversa envolvente sobre a produção audiovisual da região e seu papel na construção da memória local. Foi inspirador perceber como o cinema também atua como um instrumento de preservação e expressão das identidades do Grande ABC.
No restante do congresso, acompanhei também um belo momento de canto coral e, em seguida, uma palestra sobre a expressão das artes plásticas na identidade regional, com os professores José Armando Pereira da Silva e José de Souza Martins. O evento foi encerrado com uma discussão sobre as mudanças climáticas e riscos ambientais no Grande ABC, conduzida por Débora Cristina Santos Diogo, Gil Scatena e Luciana Rodrigues Fagnoni Costa Travassos — um tema atual e urgente, que ampliou ainda mais o escopo das reflexões.
Saí do congresso com a sensação de ter vivido um verdadeiro encontro de memórias — pessoais, acadêmicas e coletivas. Pude aprender, trocar e também contribuir com meu olhar sobre a importância da preservação do patrimônio industrial como parte essencial da identidade do nosso território. Foi mais do que um evento: foi uma vivência de pertencimento e reflexão sobre quem somos, o que lembramos e o que escolhemos preservar.
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